Advento – Histórico

O dia de hoje marca o início da segunda semana do Advento, que dá continuidade à preparação
para o dia do Natal. À medida que a grande festa se aproxima, decoramos nossas casas e igrejas com
sinais de alegria e preparamos nossos corações para receber o menino Jesus. Não se sabe ao certo
quando os cristãos começaram a celebrar o Advento, pois este, como tantas outras tradições cristãs, se
transformou ao longo dos séculos e aos poucos tomou a forma pela qual o conhecemos hoje.

A forma mais primitiva do Advento vem do Concílio de Saragossa, na Espanha, realizado no
ano 380. O Concílio prescreveu aos fiéis da região um jejum de três semanas, se extendo do dia 17 de
dezembro até a festa da Epifania, no dia 6 de janeiro. Essa festa, a exemplo da Páscoa, era considerado
um tempo próprio para batizar novos cristãos, pois na Epifania se faz memória do Batismo de Jesus nas
águas do Jordão. Esse fato sugere que tal jejum fora concebido principalmente em razão do sacramento
do Batismo, e não como forma de preparação para a festa do nascimento de Cristo.

O mais antigo relato a respeito desse tempo litúrgico sendo usado como preparação para o Natal
vem de São Gregório de Tours, bispo de Tours no final do século VI. Em seu livro A História dos
Francos ele relata que seu predecessor São Perpétuo, bispo de Tours entre os anos 460 e 490, decretara
jejum três vezes por semana, desde a festa de São Martinho de Tours (no dia 11 de novembro) até o
Natal. Não se sabe se Perpétuo estava criando um novo costume ou apenas adotara uma regra já
existente. Esse tempo de aproximadamente 40 dias seria consagrado às práticas penitenciais, como uma
espécie de “segunda quaresma”, mais leve que aquela que antecede a Páscoa. No Primeiro Concílio de
Macon, no ano de 582, esse jejum foi oficializado às segundas, quartas e sextas-feiras, e decidiu-se que
a Santa Missa seria celebrada de acordo com o rito quaresmal. Ainda no século VI, relata-se que
algumas dioceses francesas praticavam o jejum do dia de São Martinho até a Epifania, em todos os dias
da semana exceto aos sábados e domingos. Esse período consistia portanto de 56 dias, mas apenas 40
de jejum.

São Gregório Magno, papa durante o final do século VI, foi o primeiro a oficializar o período
que conhecemos como Advento para toda a Igreja ocidental, ratificando o jejum que havia sido
estabelecido, mas dando certa liberdade aos bispos locais para regular as formas de sua observância. A
esta altura, a essência do Advento era mais litúrgica do que ascética, e muito mais ligada à natividade
do que à conferência do Batismo. Gregório também estabeleceu que o período do Advento seria
constituído de cinco domingos contados em ordem reversa (isto é, o domingo mais próximo ao Natal
seria chamado Primeiro Domingo do Advento).

Por volta do século VII, o Advento também ganhou um aspecto escatológico, isto é, de
preparação para a segunda vinda de Cristo no fim dos tempos. Unindo as duas vindas de Jesus, a Igreja
espera inspirar nos fiéis o mesmo sentimento que acometia o povo de Israel: a espera ansiosa pela
chegada do Messias. Mais tarde, no século VIII ou IX, o primeiro domingo do Advento começou a ser
utlizado para delimitar o início do ano litúrgico. Foi também nessa época que sua duração foi reduzida
a quatro domingos.

Por fim, o Advento sofreu leves modificações a partir do Concílio Vaticano II. Segundo os
documentos oficiais do Concílio, esse tempo passou a ser entendido como um período de “alegria cheia
de expectativa e devoção”, não mais sendo considerado um tempo de penitência. Contudo, a restrição
ao canto do Glória e o uso do roxo nas celebrações litúrgicas permaneceram, para que tanto o hino de
louvor quanto as vestes brancas brilhassem com mais força no Natal. Para refletir o duplo significado
do Advento, o Concílio determinou ainda que a primeira metade desse período fosse usada para
expressar a espera pela segunda vinda de Cristo, enquanto a segunda metade seria utilizada para
preparar os fiéis mais diretamente para a festa do Natal.

É possível ver, portanto, que o Advento sofreu diversas transformações ao longo do tempo, à
medida que os cristãos ganhavam maior compreensão sobre os mistérios das duas vindas de Cristo.
Durante esse período, nós cristãos devemos nos preparar para receber a graça da salvação, em um
processo iniciado na Encarnação e que será coroado no retorno glorioso de Jesus, no dia que não
conhecerá fim.