Se Liga Especial Quaresma 1

“Lembra-te de que tu és pó, e ao pó hás de voltar”. Esta fórmula, inspirada nas palavras dirigidas a Adão e Eva na ocasião de sua queda (Gn 3:19), denota o sentido da Quarta-feira de Cinzas para os cristãos. O primeiro dia da Quaresma possui um significado profundo e merece lugar de destaque no calendário litúrgico, bem como a piedosa devoção dos católicos.
A origem da tradição do Dia das Cinzas não é conhecida, embora a referência mais antiga à sua observância esteja no Sacramental Gregoriano, escrito no século VI. Desde então, a Igreja prescreve aos fiéis um dia de jejum e abstinência de carne, a exemplo do que acontece na Sexta-feira da Paixão. Estas práticas de penitência visam exortar o fiel ao arrependimento de suas faltas, à diminuição de si e ao auto-domínio, como forma de prevenção às tentações da carne. Por isso, alguns fiéis piedosos impõem a si mesmo um jejum mais rigoroso, como o de pão e água; outros ainda estendem o jejum pelos quarenta dias da Quaresma (excetuando-se os domingos), como era o costume na Igreja Católica. Outras confissões cristãs, como os luteranos e os anglicanos, também celebram a Quarta-feira de Cinzas à sua maneira.
Apesar de seu significado especial, a Quarta-feira de Cinzas não é um dia de preceito, isto é, de participação obrigatória da Missa – embora um católico piedoso deva procurá-la. Como a Missa marca o início do tempo quaresmal, a cor litúrgica utlizada é o roxo. O hino do Glória e o Aleluia são omitidos, bem como o ato penitencial, que é substituído pelo rito das cinzas. As cinzas são fruto da queima dos ramos utilizados no Domingo de Ramos do ano anterior, e possuem um significado de morte e expiração, ou ainda de humildade e penitência, de acordo com as palavras do Gênesis. Sua utilização é inspirada no antigo rito da reconciliação para penitentes públicos, que levavam cinzas na cabeça. Neste contexto, as cinzas serviam como sinal externo do arrependimento, e motivava os demais fieis a rezar pelo retorno daquele penitente e a lhe serem compassivos.
Depois da homilia, o sacerdote realiza a benção das cinzas e a distribui a todos os fiéis, podendo ser auxiliado por pessoas leigas se for necessário. As cinzas são impostas na fronte do fiel em forma de cruz, acompanhadas das palavras “Convertei-vos e crede no Evangelho” ou ainda da fórmula citada no início do texto, utilizada antes da revisão litúrgica no Concílio Vaticano II. As cinzas podem ainda ser “derramadas” sobre a cabeça do fiel, embora esta prática não seja tão comum. Toda pessoa que desejar pode receber as cinzas, até mesmo aquelas que não foram batizadas, pois as cinzas, como sacramentais, não conferem a graça do Espírito Santo à maneira dos Sacramentos. As cinzas também podem ser distribuídas (mas não abençoadas) por qualquer pessoa, inclusive fora da celebração eucarística. Depois de receber as cinzas, o fiel pode permanecer com elas pelo tempo que preferir.
Distante de serem apenas um sinal externo, as cinzas devem traduzir o que há no interior do coração do homem. Por isso, o bom cristão deve se preparar para a Quarta-feira de Cinzas e para a

totalidade do tempo quaresmal com orações, reflexões e exames de consciência. É aconselhável que escolha algum tipo de mortificação e a pratique com determinação durante a Quaresma, auxiliado pelo jejum e pela esmola, conforme nos ensina a Santa Igreja.